Aula de biologia, hoje cedo. Ao que parece, algo sobre plantas.
Com um rosto turrão, a barba espessa e os cabelos raleados, o retrato disposto no canto superior esquerdo daquela edição encarava-me nos raros momentos de trégua da leitura. Lá estava meu refúgio diante da maré de palavras.
Lavei-me da solenidade muda e repetitiva que se impunha à sala.
Fundo na alma daquele jovem russo, criado apenas com a mãe e a irmã, agora envolto por uma cidade opressiva, sufoquei-me na descrição daquele ambiente hostil. Começo confuso, é verdade. Presente estava um germe que se misturava ao corpo e ao moral daquele personagem. Uma anomalia física ou apenas moral? O que poderia nascer de tudo aquilo? O século XX poderia ser arrolado como testemunha?
As páginas deslizavam sob meu olhar atento e, capítulo após capítulo, tudo se tornava inquietantemente interessante.
“Parte dois” lia-se em negrito, solitário, numa página em branco.
Uma pausa doce, quase solene.
À minha volta, todos anotavam com veemência. O quadro negro enchia-se e se apagava ao ritmo impessoal da aula. O mestre advertiu que o que viria a seguir era de suma importância: cairia no teste.
Com ambas as mãos, abri o volume rubro e regressei.
À minha volta, o quadro era apagado outra vez.