Jair Henrique Lemes
Apenas alguns fragmentos impertinentes...
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O Poeta ainda no teatro

“O cérebro do Artista assim é como tu, Esponja. Neste tumultuário oceano da vida, exposto aos azares de todos os atritos e fadigas, ressicou-se na dor; e, livre de todo o amargo primitivo, vai de século a século e de mundo a mundo mitigando a sede dos romeiros com o vinho sublime do Ideal, de que se embebedou num supremo e divino esforço de conquista sobre a própria miséria.”

- Hugo de Carvalho Ramos

Tenho demorado mais do que deveria naquele teatro que GOETHE ainda nem terminou de construir. É culpa da rubrica: “Um teatro ambulante, ainda em osso”. Antes de FAUSTO, Mefistófeles, e de toda a maquinaria que depois carregará céu e inferno para dentro da obra, três homens discutem numa barraca incompleta.

O EMPRESÁRIO, o POETA e o GRACIOSO esbarram em temas espinhosos, talvez eternos dentro da finitude desta terra: para que serve a arte e a quem ela deve alguma satisfação?

O primeiro a falar é o homem das contas. “Quero agradar ao público, e preciso, / que o público é real, e eu vivo dele.”

Não vejo cinismo na frase. Uma verdade sem enfeite, talvez, qualidade que costuma torná-las um tanto desagradáveis. Há atores, cenário, bilheteiro, aluguel; do outro lado, gente que pagou para entrar e não tem obrigação alguma de experimentar uma revelação. O EMPRESÁRIO conhece bem essa espécie humana. Uns vêm ao teatro por gosto, outros porque é onde todos estarão, alguns ainda mastigam mentalmente o jantar. Quer movimento, variedade, “ação que farte”. O poeta que guarde suas pedras preciosas se não souber lançá-las de modo que alguém se abaixe para apanhá-las.

Nosso homem das contas teve excelente descendência.

Já não precisa adivinhar o público. Mede-o. Sabe em que página abandonamos um livro, quando pulamos uma música, quantos segundos suportamos certa imagem e qual palavra, posta na capa, aumenta a possibilidade de tocarmos nela. A velha bilheteria aprendeu estatística e passou a acompanhar o espectador até dentro de casa.

Não foi o dito capitalismo que descobriu que artistas comem, é verdade. FÍDIAS teve Atenas, VIRGÍLIO o Augusto, MICHELANGELO os papas, e BACH serviu igreja e príncipe; SHAKESPEARE, por sua vez, não escrevia para cadeiras vazias. Nunca houve essa Arcádia onde a Arte, maiúscula e desobrigada, se alimentava apenas de inspiração. O que parece novo é a facilidade com que a medida do consumo começa a pedir também o posto de medida do valor.

O POETA, naturalmente, não aceita.

Sobe depressa ao seu “mundo celestial da fantasia”, longe do populacho, e proclama que “vão à posteridade as obras-primas”. O GRACIOSO, que parece ter pouca paciência com necrológios antecipados, corta-lhe o voo: “Mas que é posteridade, ou que te importa?”

Foi golpe baixo.

Há no POETA uma soberba antiga que não merece ser poupada. A posteridade é um júri muito cômodo: não comparece para contradizer o réu. Quantos maus escritores não terão morrido convencidos de que o século seguinte lhes pediria desculpas? Ser incompreendido não é certificado de gênio; às vezes fomos perfeitamente compreendidos e o resultado apenas não agradou.

O GRACIOSO prefere os vivos. Manda o poeta meter “em cheio / a mão na vida humana”, onde estão amor, ciúme, riso, acaso, vexame, essas coisas pequenas diante das quais o sublime costuma perder um pouco da pose. ARISTÓTELES talvez se sentasse melhor ao lado dele do que PLATÃO: a poesia, para o Estagirita, não se apequena por lidar com nossas paixões; pode até alcançar, pela ficção, alguma verdade que o simples registro dos fatos não apanha.

Nosso tempo também recebeu muito bem o GRACIOSO, embora tenha feito com ele coisa curiosa. Gostamos tanto de experiências que já quase não fazemos outra coisa. Há experiência gastronômica, imersiva, sensorial, exclusiva, e algumas são tão diligentemente espontâneas que já reservam a parede, a luz e o ângulo em que o visitante deverá registrar a própria espontaneidade.

Não é a fotografia o problema. Seria uma implicância senil, e ainda por cima hipócrita. O curioso está nesse pequeno desdobramento: viver uma coisa e, ao mesmo tempo, assistir de fora à pessoa que a vive. O acontecimento ainda está ocorrendo e já ensaiamos sua lembrança pública.

O GRACIOSO queria aproximar arte e vida. A vida resolveu aprender cenografia. Foi aí que ele e o EMPRESÁRIO fizeram as pazes. O POETA ficou um pouco só.

E é justamente ele, com toda sua afetação, que não consigo despachar.

Sua linguagem envelheceu. Quando pergunta quem recebe as maravilhas do mundo e as devolve acrescidas de “brilhos novos”, quem transforma paixões, quem funda mundos pela “força do homem, convertida em estro”, fala de um lugar que já não frequentamos com a mesma segurança. Deus, o Belo, a Verdade, o Espírito - houve tempos em que o artista podia pronunciar essas palavras sem precisar imediatamente prestar esclarecimentos sobre a autoridade que lhe concedera as maiúsculas.

Aprendemos a fazer perguntas úteis. Quem definiu esse Belo e que homem se escondia no “homem universal”?

Feita a limpeza, porém, não consigo jogar tudo fora.

Há um momento em que o EMPRESÁRIO exige mais ação e o POETA responde: “Deixa-me, por quem és; busca outro escravo!” A palavra muda o tom da discussão.

Ele não teme propriamente o dinheiro, mas receber de fora a finalidade de seu trabalho. Há uma diferença, nem sempre clara, entre fazer uma obra e fabricar aquilo que já sabemos que funcionará. A segunda atividade pode exigir enorme talento; apenas começa com uma resposta pronta para uma pergunta que a primeira ainda está tentando descobrir.

GOETHE teve a prudência de não resolver a disputa. No fim, o EMPRESÁRIO, já cansado da conversa, manda trazer sol, lua, estrelas, água, rochedos, feras; quer “a criação em peso” dentro da barraca, do céu à terra e daí ao inferno.

E então começa Fausto.

O homem queria espetáculo e recebeu. Há alguma justiça nisso e alguma ironia contra todos nós que tentamos separar as coisas com excessivo asseio.

Continuo, porém, olhando para o POETA.

Não o imagino puro, heroico, incorruptível. Pode ser vaidoso, surdo, medíocre; pode chamar de integridade o que não passa de incapacidade de perceber os outros. DOSTOIÉVSKI já fez bastante para desacreditar a velha presunção de que sofrer ou enxergar o abismo torna alguém melhor.

Mesmo assim, compreendo seu medo.

O EMPRESÁRIO chegou cedo ao nosso teatro e trouxe instrumentos que GOETHE não sonhou. O GRACIOSO está muito bem entre nós; nunca houve tanta experiência à venda, tanto palco e tanto público disposto também a subir nele.

O POETA permanece atrás do pano.

Não sei se perdeu a fé, o público ou apenas a antiga importância. Escuto somente sua recusa um pouco ridícula, soberba, e ainda necessária:

“Busca outro escravo.”

E o teatro continua em osso.

Jair Henrique Lemes
Enviado por Jair Henrique Lemes em 20/08/2026
Alterado em 05/09/2026
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