O crepúsculo fende-se, lento,
numa púrpura exausta sobre a Serra...
No copo, a aguardente de raízes amargas -
áspera farmacopeia dos antigos -
arde breve;
e o louro fermento, glacial de espuma,
vem depois apaziguar-lhe o incêndio.
No rádio, Zum...
“Nestas águas paradas e calmas
Que demonstram poesia em tudo
Sinto um turbilhão em minha alma
Que às vezes quase fico mudo”
Um frio miúdo sobe pelos braços,
eriça a relva dos cabelos,
e o anoitecer, sem margem,
respira por meus poros.
No fundo do copo,
Continua...
O âmbar sacramental
recolhe os últimos clarões da tarde;
ao lado, o negrume elixir,
áspero relicário de ervas.
Só o copo sua sobre a mesa,
e a noite enfim inteira
e, em algum lugar,
meu pai...
Evocado nos últimos versos,
Transmutado,
Inominado,
em mim se transfigura.
Os gargantas finalizam:
“Hoje ela está junto de Deus
Me espera quando eu chegar
E os lábios que já foram meus
Novamente eu irei beijar”