Jair Henrique Lemes
Apenas alguns fragmentos impertinentes...
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O gabinete tinha o cheiro de coisas que não iam embora: papel velho, madeira antiga, fumaça entranhada. Nem mesmo o ar que circulava parecia recém-chegado. As paredes altas, cobertas de estantes até o teto, guardavam volumes grossos como se fossem tijolos de um templo gasto. O relógio de pêndulo, no canto, batia as horas com uma paciência irritante.

Evaristo afundava-se na poltrona de couro escurecido, sentindo o peso do próprio corpo contra o encosto duro. O almoço ainda lhe subia à garganta em ondas mornas: feijão pesado, carne mal digerida, café em excesso. Uma pressão incômoda no estômago fazia-o respirar curto, como se cada inspiração precisasse negociar espaço com o que não assentara direito. Ele levou a mão ao abdome por um instante, não por dor — por enfado do próprio corpo, que insistia em lembrá-lo de sua idade.

O cachimbo repousava entre os dedos grossos. Levou-o à boca com o gesto automático de quem não pensa. A primeira baforada saiu lenta, espessa, espalhando pela sala um cheiro doce e antigo que se misturava ao pó dos livros. A fumaça subiu em espirais preguiçosas, ficando suspensa sob a lâmpada amarelada, como um teto invisível que tornava o ambiente ainda mais baixo.

Ele folheava os autos sem urgência. O papel áspero raspava levemente na ponta dos dedos, e esse som seco — chrrk, chrrk — era quase reconfortante. Lá tudo obedecia a um ritmo conhecido: virar páginas, marcar trechos.

A porta rangeu com um lamento curto.

O assistente entrou com passos contidos, como quem já aprendera que naquele gabinete o barulho parecia sempre excesso. Trazia nas mãos uma pasta fina, azul-escura, que não destoava do ambiente.

— Doutor Evaristo… — disse, em voz baixa. — A minuta das razões para o júri de amanhã.

Evaristo levantou os olhos com esforço visível e pegou a pasta sem agradecer. O couro da poltrona estalou sob seu peso quando ele se ajeitou melhor.

— Deixe aí — murmurou.

O assistente ainda permaneceu um segundo, esperando talvez algum comentário. Quando não, finalmente saiu.

Evaristo abriu a pasta devagar. Começou a ler as primeiras linhas, mas logo percebeu que não se lembrava do caso com a nitidez que esperava.

“O júri… claro”, teve uma reflexão tardia.

O processo em que pedira a prisão preventiva. Franziu a testa. Forçou a memória.

“O réu… sim”, lembrava-se agora: acusado de tentativa de homicídio contra a esposa, provas suficientes para ao menos afastar qualquer benevolência inicial. Evaristo havia sustentado, com a convicção de sempre, a necessidade da prisão cautelar: certos atos exigem contenção imediata, sob pena de atestado de frouxidão judiciária.

E então veio a negativa.

“Condição física recente do réu”, dizia a decisão. Doença, debilidade, laudos médicos anexados às pressas. Aquele argumento ainda lhe provocava um aperto seco no peito — não de emoção, mas de irritação mal digerida, como o almoço que agora lhe fermentava no estômago.

Evaristo soltou a fumaça do cachimbo com mais força dessa vez, quase um sopro de impaciência.

— Condição física… — murmurou para ninguém.

Bateu levemente a mão na mesa. A madeira respondeu com um som surdo, abafado por décadas de uso.

Voltou-se aos papéis. Leu um parágrafo inteiro sem realmente absorver as palavras. Sua cabeça estava no gesto do juiz, naquela decisão que lhe parecera, à época, uma concessão perigosa, dessas que começam pequenas e acabam abrindo precedentes incômodos.

Sentiu novamente o peso no estômago. A indigestão agora misturava-se à irritação, formando um desconforto mais amplo, quase moral. Não gostava dessa sensação de ter sido contrariado por algo que não podia classificar como erro técnico. Era pior: parecia-lhe um erro de postura. Uma indulgência fora de lugar.

Ajeitou-se na cadeira, pigarreou, levou o cachimbo à boca num gesto pensativo.

Retomou a leitura.

***

Minutos depois, uma nova batida na porta não teve a delicadeza cautelosa do assistente. Foi seca, curta, quase administrativa.

— Entre — disse Evaristo, sem levantar os olhos.

Quem entrou não era dos habituais do gabinete. O homem trazia no corpo um paletó gasto nos cotovelos e uma gravata frouxa. Os passos, um pouco apressados demais para aquele espaço lento. Tinha o rosto magro, os olhos sempre atentos a algum ponto fora da sala, como se carregasse consigo uma ansiedade.

Chamava-se Álvaro. Promotor substituto, mas com outro ritmo: menos arquivo, mais urgência.

O ar do gabinete pareceu incomodá-lo assim que entrou. Fez um movimento discreto com o nariz, aspirando o cheiro de fumaça e papel antigo, e ajeitou a gola da camisa como se precisasse abrir um centímetro a mais de espaço para respirar.

— Doutor Evaristo… — começou, com a voz ligeiramente arranhada. — Desculpe incomodar a esta hora.

Evaristo pousou o cachimbo no cinzeiro, observando-o por cima dos óculos. O homem tinha aquele jeito de quem já entra pedindo desculpa porque sabe que traz incômodo. O corpo dele confirmava isso: ombros um pouco curvados para frente, mãos inquietas que não encontravam lugar definitivo.

— Fale — respondeu, seco.

— O doutor Sérgio foi afastado hoje pela manhã. Pressão alta. Nada grave, mas… — fez um gesto vago com a mão, como quem afasta o detalhe para chegar logo ao ponto — a inspeção ordinária no presídio ficou descoberta.

Evaristo franziu a testa, não por preocupação, mas por antecipação. Já conhecia aquele tipo de frase: sempre vinha com um “e então”.

— E?

Álvaro respirou fundo antes de continuar. Era um homem acostumado a transmitir ordens que não eram suas.

— Precisamos de alguém para substituir. Ainda hoje.

A palavra hoje caiu na sala como um objeto fora de lugar. O relógio de pêndulo marcou o minuto com um estalo seco, como se comentasse a urgência.

Evaristo inclinou-se um pouco para trás na cadeira. Sentiu novamente o estômago pesado reagir ao movimento.

— Isso não é função minha — disse, sem elevar a voz.

Álvaro assentiu rápido demais.

— Eu sei. Claro que sei. — Passou a mão pela testa, limpando um suor imaginário. — Só… uma substituição. Excepcional. O senhor sabe como é.

Ele falava com aquele tom típico de quem já repetira a mesma justificativa em outros gabinetes, em outros dias. O discurso estava pronto. Havia nele uma tensão discreta, quase culposa, por estar empurrando a tarefa para alguém que claramente não a queria.

Evaristo observou-o em silêncio por alguns segundos.

— De tarde… — repetiu Evaristo, mais para si do que para o outro.

Olhou em torno do gabinete: as estantes, os autos abertos, a minuta do júri ainda sobre a mesa. Tudo lá tinha o peso da continuidade. A inspeção, não.

Sentiu o estômago embrulhar-se outra vez. A ideia de caminhar, de sair daquele ar fechado para outro ainda mais denso — o cheiro metálico de grades, suor velho, desinfetante barato — já lhe causava um desconforto antecipado. Seu corpo protestava antes mesmo de a decisão existir.

Álvaro percebeu a hesitação. Deu um meio passo à frente, sem invadir demais o espaço.

— Eu não pediria se houvesse outra opção — disse, agora com menos protocolo e mais sinceridade. — Mas hoje… não há.

Evaristo respirou fundo. O ar entrou pesado, misturado à fumaça antiga, e saiu num suspiro lento.

— Está bem — disse, por fim. — Só hoje.

— Agradeço, doutor.

Ele se despediu rápido, como quem teme que o outro mude de ideia se houver mais conversa.

Evaristo ficou sozinho outra vez.

***

O hircoso do local avançou às narinas do promotor público antes que o triste rangido das velhas grades pudesse soar às grandes orelhas que trazia consigo.

Um odor espesso, quente, difícil de identificar em partes: talvez urina antiga, suor estagnado, desinfetante barato tentando, em vão, fingir limpeza. O ar parecia mastigado por outros pulmões antes de chegar aos dele.

Evaristo estacou por um instante no limiar do corredor, sentindo o estômago reagir com um aperto seco, quase um refluxo tardio do almoço.

O corpo pareceu reconheceu o lugar antes da razão.

O cheiro o devolveu, acima de qualquer tentativa esforçada de rememoração que pudesse desempenhar há anos, quando ainda era ele o responsável pelas visitas anuais àquele lúgubre local.

Inspeções protocolares, medidas contadas. Lembrava-se de caminhar lá com outro vigor, a coluna mais firme, o passo mais seguro, a convicção intacta. O mesmo corredor, as mesmas paredes descascadas, o mesmo ar saturado — e ele, repetindo gestos e palavras como quem cumpre um ritual aprendido.

Agora, avançava mais devagar. O chão de concreto devolvia um som oco a cada passo, e esse eco curto parecia acompanhá-lo de perto demais.

Os presos começaram a se aproximar das grades, os rostos surgindo aos poucos, como se o corredor os fosse revelando em camadas. Olhos atentos, corpos pendurados nas barras, braços magros, tatuagens desbotadas.

Evaristo ajeitou o paletó, endireitou os ombros e deixou que o discurso conhecido subisse à boca quase sem esforço.

Falava enquanto caminhava.

Com uma cadência que só pode vir de anos longos de treinamento — e que também não é esquecida rapidamente, como quando se apreende na infância a andar de bicicleta —, começou:

— Ouçam bem, senhores — como sempre, deu tom enfático à última palavra. Sempre achou que ela representava, na medida perfeita, o tom institucional condizente com a posição que falava, sem se distanciar demais dos seus ouvintes. — Aqui dentro estão presos apenas os seus corpos. O espírito não se curva às grades. Ele permanece livre, mesmo quando o concreto tenta ensinar o contrário. Podem viajar a qualquer lugar com o pensamento, mesmo entre estas carcomidas paredes. Podem voltar para casa, rever rostos, lembrar quem eram antes de chegar aqui e decidir quem ainda podem ser. A dor que sentem agora não é inútil. O sofrimento físico, quando compreendido, tem função. Ele depura. Ele corrige. Agarrem-se a ele não como fútil castigo, mas como passagem. A privação ensina limites, e os limites ensinam responsabilidade. A liberdade verdadeira não começa do lado de fora dessas grades. Começa quando cada um entende o peso do que fez e escolhe não repetir. Usem esse tempo, senhores. Porque quem aprende aqui dentro pode sair melhor do que entrou.

Enquanto falava, ouvia com satisfação a própria voz ecoar nas paredes estreitas, misturada aos ruídos do corredor: tosses secas, risadas curtas, arrastar de chinelos, bater metálico distante de uma porta sendo fechada.

Ao finalizar a peroração, ouviu uma voz.

Não alta. Não agressiva. Em tom baixo, mas bem rouca, parece que cansada demais para disputar espaço com o discurso, mas que insistentemente evocava a presença do promotor.

— Doutor…

Evaristo parou, reconheceu apenas o timbre.

O homem aproximou-se das grades sem pressa. Não havia ameaça no gesto, nem súplica. O corpo era magro demais para qualquer das duas coisas. Os ombros caíam para frente, como se a coluna tivesse desaprendido a sustentar peso. A pele, amarelada, colava-se aos ossos do rosto, desenhando saliências duras onde antes deveria haver carne. Os olhos, fundos, tinham um brilho estranho — não vivo, mas atento, como o de um animal que aprendeu a reconhecer movimentos perigosos.

As mãos agarraram o ferro com naturalidade excessiva, como quem conhece o material, sua aspereza, sua temperatura. Os dedos eram grossos, deformados pelo tempo e pelo uso repetido de força inútil. As unhas, curtas, roídas até quase desaparecerem.

Quando falou, a voz saiu baixa, sem esforço. Não havia nela revolta nem arrependimento. Havia um tom quase irônico, um cansaço debochado de quem já não disputa nada com ninguém.

Ele sorriu. Faltavam-lhe alguns dentes. Os que restavam eram escurecidos, gastos, como ferramentas malcuidadas.

O corpo denunciava uma adaptação completa ao ambiente. Não resistira a ele, mas moldara-se. Havia nele algo de animalizado: a economia de movimentos, o olhar que media espaço, a ausência de qualquer pudor ao narrar a própria degradação. Falava da sexualidade adquirida ali dentro sem vergonha e sem orgulho, como quem descreve um hábito necessário, imposto pelo clima.

Enquanto falava, inclinava levemente a cabeça, observando Evaristo com atenção curiosa, quase divertida, como se invertesse os papéis por um instante.

Quando os olhos finalmente se encontraram, o passado se impôs sem delicadeza.

O júri daquele rapaz que envelhecera precocemente voltava em fragmentos à memória de Evaristo, sem ordem: o plenário cheio, o calor do fim de tarde, o nó da gravata apertado demais no pescoço. Lembrou-se do próprio vigor físico naquele dia. A barriga ainda discreta sob o paletó bem-cortado. O fôlego longo. A voz alta, segura, ocupando o espaço com facilidade.

Falara por quase duas horas completas, apesar de sua premissa ser “o discurso rápido e no cerne” para não cansar os jurados.

As palavras haviam saído alinhadas, firmes, sem tropeço. Falara do crime como fato. Do réu como agente. Da pena como necessidade. A lei era clara, não menos que a doutrina. Era um discurso que se sustentava por si.

Foi um triunfo sem dificuldades — o que ele não admitia nem para si.

A voz do homem continuava baixa, quase preguiçosa. Não havia nela acusação. Também não havia pedido. Falava como quem descreve o clima — algo que não se escolhe, apenas se atravessa.

Contou que se tornara homossexual dentro daquele ambiente hostil. A palavra que usara ficou suspensa no ar por um instante: sobrevivência.

Contou da mulher e da filha que ficaram do lado de fora. Das humilhações. Dos olhares. Dos trabalhos degradantes que aceitaram para se sustentar enquanto ele apodrecia lá dentro. O último alívio que sentira foi quando pararam de o visitar, há mais de três anos, pelas contas nada confiáveis do recluso.

Evaristo ouvia em silêncio.

Quando o nome da vítima daquele farrapo lhe atravessou a memória, veio sem solenidade. Não surgiu como nos autos, nem como nos discursos. Veio bruto. Um velho senhor. Corpo cansado antes mesmo da queda. A mesa de bar suja de copos, o chão pegajoso, o cheiro de cerveja velha misturado ao calor abafado da virada de ano. Uma discussão curta, sem grandeza. Um empurrão. O impacto seco da cabeça contra algo que não perdoa — o chão do boteco.

Morte épica. Sem aviso. Sem tempo para qualquer ajuste.

Evaristo não pensou em justiça naquele instante. Pensou no fim abrupto, quase animal, de alguém que simplesmente não voltara para casa. O pensamento parou aí, porque era aí que doía mais.

Vieram então os filhos. Dois. Não como figuras abstratas, mas como presença deslocada no mundo. Lembrou-se deles em um dia abafado em seu gabinete. Não choraram.

“Gente que acorda num dia comum e descobre que tudo foi arrancado de lugar. O pai ausente não como memória doce, mas como falta concreta: cadeira vazia, carta que não chega, silêncio pesado demais para ser explicado”, voltou imediatamente à mente esse pensamento de anos antes.

O preso à sua frente falava da mulher e da filha deixadas do lado de fora. Evaristo escutava, mas outra imagem insistia em se impor: aquela família que não teve sequer a chance de se adaptar à ausência. Não houve sobrevivência possível. Só o buraco.

O homem diante dele respirava. Estava vivo. Adaptado. Moldado.

A vítima, não.

O corredor parecia pulsar ao redor. O cheiro tornava-se quase insuportável. O corpo reagia antes que qualquer raciocínio se organizasse.

Evaristo voltou os olhos para o homem, quase por reflexo. Ele continuava lá, apoiado nas grades, o corpo pendido num equilíbrio aprendido. O rosto mantinha a expressão opaca, nem desafiadora, nem submissa. Havia um brilho curto no olhar. O preso o observava em silêncio, com uma atenção curiosa, quase animal, como se aguardasse um movimento. Nada veio. Apenas dois corpos parados no corredor, separados por ferro, tempo e coisas que não se organizavam em sentido algum.

O agente penitenciário pigarreou atrás dele, sinalizando que o tempo avançava.

Evaristo seguiu adiante sem ordenar os pensamentos. Não tentou.

Continuou pelo corredor.

***

Já no final de tarde, o gabinete o recebeu com indiferença. A madeira, os livros, o ar pesado e o cheiro do tinteiro. O relógio marcava o tempo com o tique seco, alheio a corredores, grades ou vozes roucas.

Evaristo fechou a porta atrás de si e permaneceu alguns segundos em pé, sentindo o corpo acomodar-se ao espaço. O estômago ainda pesava, mas em uma mistura de algo que se assemelhava à fome — que o jurista já não sentia com convicção há tempos — e ao enfado.

Sentou-se devagar. A poltrona rangeu no mesmo ponto. O cachimbo estava onde o deixara. Pegou-o por hábito, acendeu, tragou sem atenção. A fumaça subiu menos densa do que antes e dispersou-se rápido demais, como se o ar já não a quisesse reter.

Abriu os autos do caso do dia seguinte. As páginas estavam marcadas, sublinhadas, domesticadas por leituras anteriores. Leu as primeiras linhas com cuidado excessivo, como se estivesse reaprendendo um idioma conhecido. Nada havia mudado no texto. Os fatos continuavam alinhados. As provas, sólidas. O enquadramento jurídico, confortável.

Ainda assim, a leitura não avançava.

Os olhos voltavam sempre à mesma frase. Apresentava-se uma resistência quase física, um atrito sem explicação clara. Ele respirou fundo, pigarreou, ajeitou-se na cadeira. Tentou outra vez.

Pegou a caneta.

Riscou uma palavra no meio da frase. Um gesto simples, automático. A tinta atravessou o papel com leve aspereza. Observou o risco por um instante curto, sem pensar muito. Em seguida, logo ao lado, escreveu a mesma palavra novamente, com a letra um pouco mais firme.

Ficou olhando para ela.

Nenhuma correção real. Ainda assim, o gesto lhe pareceu suficiente por ora.

Fechou a caneta. Encostou-se na cadeira. A fumaça do cachimbo apagado subia apenas em memória.

Do lado de fora, o prédio começava a esvaziar-se. Passos distantes ecoavam no corredor. Começaram os barulhos de sempre do fim de expediente. Conversas apartadas entre grupelhos. Algumas risadas.

***

O salão do júri tinha o mesmo cheiro de repartição antiga: madeira encerada, papel quente, suor preso no tecido das cadeiras. O ventilador no teto girava com esforço, empurrando o ar sem conseguir renová-lo. O som das pás era um lamento cíclico, como se o ambiente respirasse com dificuldade.

Evaristo sentia o paletó colar-se nas costas. A gola da camisa, úmida, incomodava-lhe a nuca. Havia passado a noite anterior curvado sobre os autos, os olhos ardendo, os dedos manchados de tinta, percorrendo mais de uma vez as fotografias e os laudos juntados.

O oficial de justiça iniciou a penosa leitura integral dos autos. A voz neutra, sem inflexão, recitava nomes, datas e artigos como se enumerasse objetos. As páginas viravam com um som seco. O plenário se movia em pequenas reações involuntárias: um bocejo, um pigarro, uma cadeira arrastada. A burocracia avançava como um rio lento, indiferente às margens humanas que tocava.

Quando a leitura já parecia não ter fim, ouviu-se o ranger da porta lateral.

O réu entrou atrasado.

O som metálico das correntes denunciava cada passo. Ele caminhava com dificuldade, apoiado no braço de uma mulher idosa. O corpo parecia menor do que nos autos, mais curvado, como se estivesse encolhendo dentro da própria existência. O pescoço mal sustentava a cabeça. Os olhos vagavam, sem repousar em nada.

A mulher não o soltava. Segurava-lhe o braço com firmeza, como se temesse que ele se partisse se ficasse só. O rosto era fechado, quase opaco. Nada nele denunciava perdão, nem ódio. Era a mesma mulher que os autos nomeavam como vítima.

Evaristo sentiu o estômago retesar.

Um turbilhão atravessou-lhe o âmago nos poucos segundos em que o homem se acomodava no banco dos réus — tão rápido e denso que só poderia nascer de algo antigo, já vivido muitas vezes em silêncio. Não tomou forma de pensamento claro. Veio como um golpe seco no estômago. Evaristo sentiu antes de compreender.

Não era a impunidade como ideia. Era a soma crua do que já passara sob seu jugo: os réus absolvidos por bravatas técnicas, por piedades fáceis; os que saíram e voltaram a ferir; os nomes que reapareciam nos relatórios, sempre ligados a outros corpos, nunca aos que decidiram. Sentiu isso como quem sente algo físico corroendo-lhe o próprio fígado, sem encontrar palavra que o contenha.

Vieram então rostos sem contorno — aqueles que sempre sentiam o peso da complacência barata: muitos pais que não chegaram em casa naquele dia, diversos filhos que lhe tiveram arrancados de inopino o seu manancial humano, os incontáveis casos de entorpecentes, que de tão abstratas vítimas eram para os julgadores, mas que ele sentia dia a dia nas lágrimas de mães em seu gabinete, e um velho — lembrava-se — que teve furtados alguns míseros trocados por um salteador de ocasião, mas de tanta indigência em que vivia, que o melhor seria tirar-lhe a vida.

Mas a visita de ontem também pesou em sua muda dialética biliar. O estômago voltara a se contrair, como se ainda estivesse no corredor úmido, respirando o mesmo ar estagnado. Não pensava nos rostos que atravessaram sua memória, mas no espaço estreito que parecia não ter saída; na sensação de sufocamento que parecia-lhe prender, lá mesmo no plenário, como que se quisesse, sem conseguir, sair de um sonho em que se afoga no mar.

Diante dele, o réu repetia o mesmo gesto contido, a mesma curvatura discreta, a economia de movimento que Evaristo reconhecera no presídio.

A cela voltara-lhe nos sentidos ao ritmo da respiração curta, da cabeça levemente pendida, no modo como os ombros pareciam pedir permissão para existir.

O plenário, com sua luz limpa e suas fórmulas, tornava-se por um instante apenas outra sala fechada, outro corredor de paredes invisíveis. Evaristo sentiu que a distância entre aqueles dois espaços era menor do que aprendera a admitir.

Nada disso se resolvia.

As testemunhas foram chamadas uma a uma. Diziam o nome, confirmavam os dados, respondiam. Perguntas e respostas se sucediam com a monotonia de um mecanismo antigo. A vida real dissolvia-se sob as égides da processualística.

Quando a defesa tomou a palavra, tentou erguer a tese de legítima defesa com perguntas confusas, malformuladas, quase cômicas. O defensor, nomeado há alguns minutos do julgamento, tropeçava em datas, invertia versões, fazia o plenário suspirar de constrangimento. Era uma caricatura da técnica. Mas não era aquele homem que dependeria de Evaristo.

Quando chegou sua vez, levantou-se.

Sentiu o corpo atrasar um instante, como se precisasse de autorização para continuar. Passou a mão na orelha das duas laudas do libelo e caminhou devagar até a mesa central, com a sensação incômoda de que as palavras chegariam antes dele. Falou. Com correção. Com clareza. Como sempre fizera.

Enquanto falava, não via o plenário — via fragmentos: o corpo curvado, a mão que sustentava, o espaço vazio onde alguém deveria estar. A vítima presente, mais atenta aos cuidados de seu senhor que à solenidade forense. A presença deformada. Nenhuma imagem anulava a outra.

Terminou.

As deliberações ocorreram aos olhos, mas ele lá não estava. O ventilador continuava a girar.

Quando tudo se encaminhava ao encerramento, Evaristo reuniu os papéis com cuidado. Passou a folha para o alto da pilha, alinhou as bordas com a palma da mão e firmou o papel com dois dedos. A mão hesitou um instante mínimo, quase imperceptível, antes de descer.

Assinou no local indicado pelo escrivão.

O traço saiu reto, habitual — e ainda assim lhe pareceu estranho, como se não lhe pertencesse por completo.

Do outro lado da mesa, o homem respirava em pequenos solavancos. A mulher não o soltava.

Evaristo fechou a pasta e saiu a acender seu cachimbo.

 

Jair Henrique Lemes
Enviado por Jair Henrique Lemes em 05/09/2026
Alterado em 05/09/2026
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