E quão deliciosa soa a leitura de algo tão espirituoso, autoral e substancioso - em uma era de superficialidade, massificação de estilo, verdadeira casquealidade-, como Gente Pobre, de nosso velho amigo Fiódor Dostoiévski.
Não foi minha primeira leitura do escrito, mas com certeza a mais proveitosa – como é sempre a nova passada de vista pelos clássicos.
No final do ano passado, comprei a calhamástica biografia do autor - meu conhecido desde os dezesseis anos em minha estreia em Crime e Castigo, principalmente nas lamuriosas aulas de biologia do ensino médio – escrita por Joseph Frank. O leitor bem deve conhecer a edição. É aquela de cor preta, com uma enorme foto de nosso herói em sua capa, que soa muito bem virada para frente na estante, dando aquele saboroso ar intelectual... Mas este enorme volume me tiraniza desde então, por saber que ali esconde-se um maravilhoso mundo ainda desconhecido, daquele que considero um de meus autores prediletos.
E no principiar deste mês finalmente comecei a jornada.
Ao passar pelo capítulo dedicado ao seu primeiro escrito, Gente Pobre, publicado em 1846, não pude deixar de me encantar pelo contexto de sua publicação e as primeiras críticas, positivas, recebidas pelo autor.
E hoje, ao reler de um só golpe essa obra, apenas com o hiato de compromissos cívicos consistentes na sintonização na TV Justiça, às 10:00h, para acompanhar a lamentável crônica nacional por algumas horas, senti-me qual Bielínski, influente crítico literário de seu tempo, ao seu primeiro contato:
Está vendo este manuscrito? [...] Há quase dois dias não consigo me afastar dele. É um romance de um iniciante, um novo talento [...] seu romance revela segredos da vida e de personagens na Rússia como ninguém antes dele sequer sonhou. Basta pensar nisso – é a primeira tentativa de romance social que temos [...] O tema é simples: diz respeito a uns simplórios de bom coração que supõem que marar o mundo inteiro é um extraordinário prazer e um dever para todos. Eles não conseguem compreender nada quando a roda da vida, com todas as suas regras e regulamentos passa sobre eles e fratura seus membros e ossos sem dizer uma palavra. Isso é tudo – mas que drama, que tipos: Esqueci-me de lhe dizer o nome do artista é Dostoiévski.
***
Dostoiévski começa sua trajetória literária em uma Rússia marcada pela ordem imperial, pela rígida hierarquia social e pela forte presença da censura, ao mesmo tempo em que novas correntes intelectuais e literárias começavam a circular entre os jovens escritores.
Na década de 1840, o ambiente literário russo passava por uma mudança importante: o gosto predominante nos anos 1830 começava a dividir espaço com uma literatura mais atenta às condições concretas da vida social, aos pequenos funcionários, aos pobres e aos personagens até então pouco elevados à condição de protagonistas.
Como observa Joseph Frank:
Até 1842, e apesar de sua afinidade com o humanitarismo compassivo dos românticos sociais franceses, Dostoiévski ainda estava trabalhando conforme o gosto literário dominante na década de 1830. Afinal, não havia nenhuma corrente de opinião crítica na Rússia indicando outra direção a seguir para um jovem aspirante à fama literária. Porém a campanha de Bielínski em favor de Gógol e a transformação de Anais da Pátria em um posto avançado russo da tendência ‘socialista’ francesa mudaram o quadro inteiro de um só golpe. E uma vez que Dostoiévski se comprometera emocionalmente com os ideais morais desse movimento bem antes de Bielínski, não é difícil entender o entusiasmo com que ele aderiu ao novo movimento cultural.
É nesse novo ambiente que Dostoiévski começa a encontrar uma direção mais definida para sua própria literatura. A influência de Gógol se intensifica, e o olhar do jovem escritor se volta cada vez mais para personagens comuns, sujeitos às privações e às pequenas humilhações da vida cotidiana. Gente Pobre, publicado em 1846, nasce justamente desse momento de transformação da literatura russa e dessa crescente atenção aos indivíduos socialmente apagados.
Há, contudo, algo curioso nessa transição. Se o objeto da literatura começa a mudar, nem tudo aquilo que a precedera é abandonado. Gente Pobre é um romance social, sem dúvida, mas é epistolar; e a escolha não me parece gratuita. A carta permite que o acontecimento externo chegue ao leitor já atravessado pela consciência de quem o vive. Não vemos apenas o que acontece a Makar e Varvara, mas como cada acontecimento é sentido, rememorado, exagerado, temido e transformado em linguagem por eles.
Nisso ainda há muito daquele subjetivismo e lirismo que marcara o romantismo europeu e, em terreno alemão, de todo um ambiente intelectual que privilegiava a interioridade, a consciência e a experiência individual. O exemplo clássico, quase inevitável, é o Werther, de GOETHE, publicado em 1774, também construído predominantemente por cartas. Nele, a realidade exterior parece existir apenas depois de passar pelo coração de Werther. Basta ver a maneira como fala de Carlota:
[...] Ela é sagrada para mim. Todo meu desejo emudece em sua presença. [...]
A frase diz pouco sobre Carlota e quase tudo sobre Werther. Eis uma das virtudes da forma epistolar: a carta não precisa fingir imparcialidade. É o sentimento falando de dentro, no momento mesmo em que procura compreender a si próprio.
E talvez encontremos coisa semelhante logo nas primeiras páginas de Gente Pobre. Makar olha para a janela de Varvara, interpreta o movimento de uma cortina como uma mensagem e, a partir de quase nada, constrói todo um pequeno universo afetivo. A simples possibilidade de vê-la basta para que escreva:
[...] em minha imaginação, estava com seu sorrisinho radiante [...] e em meu coração experimentei exatamente a mesma sensação de quando a beijei [...].
O parentesco formal é interessante. Tanto Werther quanto Makar escrevem porque sentem, e a carta permite que esse sentimento ocupe a narrativa sem a intermediação constante de um narrador que venha ordená-lo ou explicá-lo. Há suspiros, repetições, exclamações, digressões, mudanças bruscas de assunto. A linguagem acompanha o estado interior de quem escreve.
Mas é justamente aí que Dostoiévski começa a fazer algo diferente.
A forma que servira tão bem ao grande drama sentimental de Werther é agora colocada nas mãos de um pequeno funcionário pobre e de uma jovem sem posição social. O subjetivismo permanece; muda quem tem direito a ele. O sofrimento íntimo, a delicadeza, o lirismo, a necessidade de ser amado — tudo aquilo que a tradição romântica explorara com tamanha intensidade — não pertencem mais apenas ao jovem culto, ao herói excepcional ou ao indivíduo de grande sensibilidade que se sente em conflito com o mundo. Dostoiévski concede a mesma profundidade interior àqueles que poderiam facilmente aparecer em outra literatura apenas como parte do cenário social.
E isso me parece fundamental em Gente Pobre. Makar é um copista, ocupa um grau inferior da burocracia, preocupa-se com as botas gastas, com os botões da roupa, com o chá que talvez não possa tomar e com o que os colegas pensarão dele. No entanto, dentro de suas cartas existe uma vida interior imensa. Ele próprio, que tantas vezes se considera pequeno, escreve:
[...] não tenho estilo, Várienka, não tenho nenhum estilo. [...] Escrevo o que me vem à mente, apenas para distraí-la com alguma coisa.
E aí está talvez uma das novidades mais interessantes daquele nascente romance social: dar subjetividade a quem socialmente quase não possuía voz.
Há, portanto, uma espécie de continuidade e ruptura ao mesmo tempo.
***
Como não poderia melhor delinear a trama do que Frank, colaciono as suas linhas:
Gente pobre é construído em forma de romance epistolar entre dois correspondentes – o humilde conselheiro titular Makar Diévunchkin, um copista de meia-idade empregado em um dos imensos escritórios da burocracia de São Petesburgo, e uma moça que mal saiu da adolescência, Varvara Dobrossiélova. Ambos são almas delicadas, solitárias e frágeis cuja mútua solicitude traz um raio de calor para suas vidas de ordinário sombrias. Mas o idílio inocente logo acaba pela pressão das forças sórdidas contra as quais eles lutam. A desesperança da posição de Varvara e a oportunidade de restabelecer a sua situação social obrigam-na a aceitar uma oferta de casamento, e o livro termina no gemido de angústia de Diévunchkin enquanto Varvara desaparece para sempre nas estepes com seu insensível noivo Bikov (cujo nome evoca a palavra “touro”, em russo).
Tem-se aí um belo quadro.
Não que tenha pesquisa a fundo essa temática, mas sou do parecer, intuído, que grande parte da interpretação de um texto pertença ao leitor. Este ser sempre joga luz à obra embebido de suas experiências, reflexões prévias e, claro, outras interpretações, de outras experiências e de outras reflexões.
Claro é que a interpretação deve ser suportada pelo texto e pelo contexto.
Talvez aí esteja o ponto de equilíbrio.
Falemos do ponto mais levantado em qualquer comentário sobre essa obra de nosso amigo: o retrato da pobreza.
Com certeza, é um dos pontos altos de toda a narrativa, e faz repensar a verdadeira dimensão axiológica do que hoje encontra-se inscrito no art. 1°, III, da Constituição da República, afinal, o que é a dignidade humana?
E há uma passagem, aliás, que me parece responder com admirável simplicidade à indagação. Já humilhado pelas dívidas, pelas roupas puídas e pela vergonha que o acompanha até na repartição, Makar é chamado à presença de Sua Excelência. Recebe dele cem rublos, quantia nada desprezível para quem contava moedas até para o chá, mas não é isso o que mais o comove. O superior lhe estende a mão.
[...] pegou em minha mão indigna e a apertou, ainda assim pegou e apertou, como se fosse a de alguém como ele próprio [...].
Veja-se que coisa curiosa: o dinheiro podia pagar a senhoria, comprar-lhe alguma roupa, remendar a vida por alguns dias; o aperto de mão tocou outro lugar. Makar chega a dizer que os cem rublos não lhe eram tão caros quanto aquele gesto e conclui:
Com isso ele restituiu-me a mim próprio.
Não me parece possível reduzir a cena à caridade. A miséria já havia alcançado Makar em sua tranquilidade, na aparência, no amor-próprio e, por fim, no modo como ele próprio se enxergava entre os demais.
Não me delongarei no debate nessas páginas, e logo expresso a minha impressão: a substancialidade dessa dignidade é o que nos diferencia de todos os outros entes desta terra, a imagem e semelhança de Deus. E qual a forma de maior indignidade que pode existir, senão a renúncia de um amor verdadeiro - seja ele filial, seja romântico, numa porta que, a meu ver, Dostoiévski deixa propositalmente aberta ao leitor -, reflexo do amor que Jesus teve pelo homem, pelo reles pão, pela simples sobrevivência?
E não me parece que o texto autorize fechar essa natureza do amor com grande segurança. Makar insiste em chamá-lo de afeição paternal:
[...] Era a afeição paternal que me movia, pura e unicamente a afeição paternal [...].
Varvara, todavia, na despedida, usa palavras que deixam a porta entreaberta:
[...] foi a única pessoa que me amou aqui. [...] Lembre-se da sua pobre Várienka, que o amou com todas as forças. [...] Com eterno amor.
Em síntese, é o que as circunstâncias de nossos personagens o levam a fazer.
É o que conclui Varvara Aleksêievna:
[...] Meu amigo, vou me casar com ele, devo concordar com sua proposta. Se alguém pode me livrar de minha ignomínia, restituir-me meu nome honrado, prevenir minha futura pobreza, carestia e infelicidade, é apenas ele. O que devo esperar do porvir, o que ainda perguntar ao destino? Fedora diz que não devo renunciar à felicidade: diz... Mas o que, nesse caso, é a felicidade? Eu, pelo menos, não encontro outro caminho para mim, meu amigo inestimável. [...]
Não me delongo nesse aspecto, por demais ressaltado em todo e qualquer análise da obra, como não poderia deixar de ser. Claro está que esta suporta uma interpretação social, ou socialista, que de modo nenhum é equivocada por natureza. Basta verificar o contexto da publicação e algumas de suas outras passagens.
E Makar, de sua janela estreita, enxerga perfeitamente a indecência dessa distância social:
[...] a gente rica não gosta de ouvir os pobres se queixando da sua má sorte [...] talvez porque seus gemidos famintos lhes perturbem o sono!
Mas aqui temos uma imagem claríssima dessa condição social, não só de nossos personagens, mas do mundo a sua volta, lastreado em um ambiente sufocante, sujo, fedorento, com pessoas doentes.
A pobreza, aqui, tem cheiro, umidade, doença, roupa, corpo. Makar descreve o ar da casa como meio podre, penetrante e adocicado, até chegar à imagem que dispensa qualquer comentário:
[...] a roupa fica com cheiro, as mãos ficam com cheiro, tudo fica com cheiro - e a gente se acostuma. Até os tentilhões, aqui em casa, morrem.
O silêncio...
[...] São uns coitados, uns coitados, Senhor meu Deus! Seu quarto está sempre calmo e silencioso, como se não morasse ninguém. Não se ouvem nem as crianças. Não acontece de às vezes as crianças correrem, brincarem, e isso é um mau sinal. Certa vez, à noite, ocorreu-me de alguma forma de passar junto à sua porta; nessa hora, fazia na casa um silêncio raro; ouvi um soluço, depois um sussurro, depois novamente um soluço, como se estivessem chorando, mas tão baixo, tão mísero, que meu coração arrebentou, e depois o pensamento nesses coitados não me largou a noite inteira, de modo que não consegui dormir bem. [...]
E algo mais desesperador, um olhar pensativo de uma criança...
[...] Eu não gosto, Várienka querida, quando uma criança fica pensativa; é desagradável de olhar! Uma boneca de trapos jaz no solo, a seu lado, ela não brinca; mantém um dedinho nos lábios; fica parada, não se move. A senhorita deu-lhe um bombonzinho; ela pegou, mas não comeu. Triste, não é, Várienka?
***
Há, ainda, outro fio que me parece delicioso nessa pequena obra: há literatura por toda parte. E não apenas porque estamos diante de um romance epistolar, portanto de duas pessoas que escrevem uma à outra e, querendo ou não, escrevem a si mesmas. Os livros circulam entre os personagens, são emprestados, comprados com sacrifício, dados de presente, discutidos, desprezados, amados. E cada qual parece revelar alguma coisa de si justamente pelo modo como lê.
Varvara talvez seja a leitora mais aberta entre eles. É Pokróvski quem lhe põe os livros nas mãos e, a princípio, ela lê apenas para vencer o sono enquanto vela a mãe doente. Logo a coisa muda:
Pokróvski sempre me emprestava um livro; de início eu lia para não adormecer, depois com mais atenção, depois com avidez [...].
Diz ainda que, com aquelas leituras, abriu-se diante dela um mundo de coisas novas, acompanhado de novos pensamentos e novas impressões. A literatura, para Varvara, não confirma apenas o que ela já sabe: amplia. Perturba um pouco, ensina, mexe. E talvez por isso também permaneça tão ligada à memória. Quando torna a ler os Contos de Biélkin, de PÚCHKIN, não encontra apenas Púchkin, mas sua mãe, com quem havia lido aquelas histórias dois anos antes, e escreve simplesmente que se sentiu triste ao relê-las.
Pokróvski, por sua vez, praticamente vive entre livros. Tinha muitos, raros e valiosos, e o pouco que conseguia ganhar dando aulas logo encontrava destino certo:
[...] mal ganhava um dinheirinho, ia na mesma hora comprar livros.
É também por conhecê-lo assim que Varvara, pensando em seu aniversário, decide comprar-lhe as obras completas de PÚCHKIN, usando justamente o dinheiro que guardava para um vestido. O velho Pokróvski entra nessa história de outro modo. Não é o leitor apaixonado do filho, mas entende que os livros podem alcançá-lo onde suas próprias palavras não conseguem. Quer presenteá-lo com eles, quer que o filho saiba que economizou, que está se emendando, que é capaz de alguma coisa boa. E termina naquele quadro de uma tristeza física. Morto o filho, corre atrás do caixão debaixo de chuva, com os livros caindo dos bolsos na lama, recolhendo-os e tornando a correr.
Vejamos que imagem! Apenas o prenúncio de uma das cenas mais tristes da literatura, a ser elaborada por nosso autor em Crime e Castigo, nos momentos finais de Ekatierina Ivánovna.
Transcrevo apenas uma amostra, pela sua grandeza, em todos os sentidos:
[...] Ekaterina Ivánovna batia palmas com as suas esquálidas mãos, quando obrigava Pólietchka a cantar e Liena e Kólia a dançar, e, além disso, ela também se punha a cantarolar em voz baixa, embora tivesse de se interromper logo na segunda nota, por causa da maldita tosse, o que voltava a exasperá-la, fazendo-a amaldiçoar aquela tosse, até que começava a chorar. O que mais a enfurecia era o choro e o medo de Kólia e de Liena. De fato, tentara vestir os pequenos com trajes semelhantes aos que os cantores e cantoras de rua usavam. O rapazinho usava na cabeça uma espécie de turbante vermelho e branco, para imitar um turco. Para Liena o pano não fora o suficiente, e pusera na cabeça dela um gorro encarnado, de pelo de camelo (ou, para melhor dizer, o gorro de dormir do falecido Siemion Zakháritch), e no referido gorro prendera o resto de uma pluma branca de avestruz que pertencera à avó de Ekaterina Ivánovna e que esta guardara até ali, numa arca, como relíquia de família. Pólietchka usava o mesmo vestidinho de sempre. Olhava para a mãe com olhos tímidos e alheados, sorvendo as suas lágrimas, adivinhando a sua loucura e observando inquieta à sua volta. A rua e as pessoas infundiam-lhe um medo enorme. Sônia seguia de perto Ekaterina Ivánovna, chorando e suplicando-lhe insistentemente que voltasse para casa. Mas Ekaterina Ivánovna era inexorável.
— Deixa-me, Sônia, deixa-me! — gritava, respirando com dificuldade e tossindo. — Tu não sabes o que estás pedindo, pareces uma criança! Já te disse que não volto para junto daquela bêbada alemã! E quero que toda a cidade de Petersburgo veja como andam pedindo esmola os filhos de um pai honesto, um homem que toda a sua vida serviu fielmente e com fidelidade o Estado, e que, pode-se dizer, morreu em serviço — Ekaterina Ivánovna começava a acreditar nisso. — Que antipática mesmo essa fantasia e a acreditar nisso. Que antipático esse generalzinho, veja! Mas tu estás tonta, Sônia? Que vamos comer agora, não me dizes? Já te exploramos bastante, não quero continuar assim! Ah, é o senhor, Rodion Românovitch — exclamou, ao ver Raskólnikov, e se dirigiu a ele. — Pois faça o favor de fazer esta tolinha ver que isto é a coisa mais adequada que eu podia fazer! Até os tocadores de realejo ganham alguma coisa, e, a nós, vão nos distinguir imediatamente, pois verão que eu sou uma pobre órfã, de boa família, que se viu reduzida à miséria, e até esse generalzinho vai ficar com a carteira arruinada! Vamos nos colocar todos os dias ao pé da janela dele, e quando o imperador passar, vou me prostrar a seus pés, de joelhos, empurrarei estes na minha frente e direi: “Protege-os, pai!”. Ele é o pai dos órfãos. Ele é misericordioso e há de protegê-los, vai ver; mas esse generalzinho... Liena! Tenez vous droite!¹³ E tu, Kólia, vamos lá dançar outra vez. Por que choramingas? Outra vez chorando? Vamos ver, de que tens medo, meu tolo? Senhor! Que hei de fazer com eles, Rodion Românovitch? Se soubesse como são tontinhos! Que hei de eu fazer com eles? [...]
Nosso bom Makar é um leitor bem mais atrapalhado - e talvez por isso mais interessante. Começa convencido de sua ignorância. Repete que não estudou, que não sabe descrever e, sobretudo, que não tem estilo:
[...] não tenho estilo, Várienka, não tenho nenhum estilo. [...] Escrevo o que me vem à mente [...].
Mas basta aproximar-se de Rataziáiev e seus serões literários para que se entusiasme. O vizinho lê durante horas, fala de autores, escreve de maneira floreada, frequenta gente que Makar considera distinta, e isso lhe parece um mundo inteiro. De repente, aquele homem que dizia nada saber sobre literatura passa a assegurar a Varvara:
A literatura é uma coisa boa, Várienka, muito boa [...] É algo profundo! É algo que edifica e fortalece o coração das pessoas [...].
Varvara não compra o entusiasmo. Quando lê Rataziáiev, pergunta a Makar como pode gostar daquilo e o chama, sem qualquer cerimônia, de verdadeiro disparate. Makar sai em defesa do amigo, fala do estilo floreado, das figuras, das ideias, e chega a recomendar que ela o leia com sentimento, bem-disposta e, de preferência, com uma balinha na boca.
E então aparecem os dois russos que tornam esse jogo realmente interessante: PÚCHKIN e GÓGOL.
Com Púchkin, a experiência é de reconhecimento sem ofensa. Varvara lhe envia os Contos de Biélkin e Makar se encanta especialmente com O chefe da estação. Sua reação é imediata:
Isso é natural! Isso é real! Eu mesmo vi isso - eu mesmo convivo com isso tudo [...].
O pobre Samson Vírin poderia ser Gorchkov, poderia ser ele, poderia ser qualquer outro. E Makar não apenas tolera a semelhança, mas gosta dela. Diz que aquilo pode acontecer consigo, com Varvara, até com um conde da Niévski, apenas sob outras aparências, e insiste para que ela releia o conto com atenção. Rataziáiev ainda lhe explica que esse tipo de literatura já estaria ultrapassado e que a moda agora seriam descrições e ilustrações; Makar, com sua honestidade habitual, admite que não entendeu muito bem, mas guarda o essencial, ou seja, Púchkin é bom.
Com Gógol a coisa muda de figura. O reconhecimento que em Púchkin não o havia ofendido torna-se, agora, quase insuportável.
Varvara lhe manda O Capote. Makar lê e se enfurece. Não quer saber por que alguém haveria de entrar no cubículo alheio para verificar a roupa, as botas, o que se come, o que se bebe, o que se copia. A pergunta dele poderia muito bem estar algumas páginas antes, quando falava da vergonha do pobre de ter a vida bisbilhotada:
Para que escrever sobre o outro que, por exemplo, vez por outra ele passa por necessidades, não toma chá?
Só que, no meio de toda a indignação, escapa-lhe uma confissão extraordinária. Ao falar das botas novas do personagem, concede:
[...] isso está descrito com fidelidade!
E é justamente aqui que a reação de Makar fica mais interessante, porque não parece irritado porque Gógol tenha mentido sobre o pobre funcionário, mas porque acertou demais. Em Púchkin, podia reconhecer a desgraça de um homem semelhante a ele e tomá-la como coisa da vida; em Gógol, a sensação é outra, quase a de alguém que entrou em seu cubículo, remexeu suas roupas e resolveu mostrar suas botas ao público. A questão da dignidade reaparece, portanto, pela literatura.
E aí está, a meu ver, uma das maiores travessuras do jovem Dostoiévski. Faz conosco justamente aquilo que Makar acusa Gógol de fazer. Nós também sabemos quanto ganha, onde mora, o estado de suas botas, o que deixa de comer, seus vexames na repartição, seus medos e suas pequenas vaidades. A diferença é que Dostoiévski não fala simplesmente sobre Makar. Entrega-lhe a pena. O sujeito pobre, que tem horror de ser transformado em objeto do olhar alheio, passa a narrar a própria pobreza.
Isso explica também a mudança brusca de Makar em relação aos livros. Quando teme que Rataziáiev transforme sua relação com Varvara em sátira e exponha aquilo que ele considera sagrado, a literatura deixa imediatamente de ser aquela coisa profunda que edificava o coração:
E livro para quê, minha filha! O que é o livro? É uma invenção sobre as pessoas. [...] tudo feito unicamente para pasquinada!
Não vejo nisso grande contradição. Makar julga os livros com a mesma medida com que sente o mundo. Admira-os quando o elevam, aceita reconhecer-se neles enquanto esse reconhecimento não lhe fere o amor-próprio e se volta contra a literatura quando suspeita que sua intimidade pode ter virado matéria de riso.
Na outra ponta está Bíkov, e aqui Dostoiévski quase não poderia ser mais claro. Quando Varvara tenta explicar que o que Makar lhe fez não pode ser pago com quinhentos rublos, Bíkov reduz justamente essa noção de vínculo e gratidão a fantasia de moça que leu demais:
[...] era tudo um disparate, coisas de romances [...] os romances levam as jovens à perdição, [...] os livros só servem para corromper a moral [...].
A frase cai perfeitamente em Bíkov. Varvara conheceu pelos livros um mundo que antes lhe era estranho; Pokróvski praticamente vivia entre eles; o velho pai encontrou neles um modo de alcançar o filho; Makar faz deles consolo, espelho e, às vezes, ameaça. Bíkov, ao contrário, despacha tudo como fantasia inconveniente diante do mundo que realmente lhe interessa - negócios, propriedade, casamento, herdeiros.
E ainda há uma última ironia, que me agrada particularmente. Makar passa o romance inteiro dizendo que não sabe escrever. É copista: sua profissão consiste, afinal, em reproduzir as palavras dos outros. Tem vergonha de imaginar um livro com seu nome e, quando cogita por brincadeira umas Poesias de Makar Diévuchkin, logo pensa no vexame de todos descobrirem que as botas do escritor têm remendos.
Só que durante todo o romance ele escreve. E nessas cartas vai formando exatamente aquilo que jura não possuir, uma voz. No fim, quando Varvara já está sendo arrancada de seu cotidiano, ele mesmo percebe, quase sem perceber o que diz:
[...] agora estou até começando a formar meu estilo... Ah, minha querida, o que interessa o estilo? [...] escrevo por escrever, apenas para lhe escrever mais...
Pela escrita, aquele homem quase invisível socialmente deixa de ser apenas o funcionário pobre, o conselheiro titular de botas gastas. Nas cartas aparece inteiro: vaidoso, por vezes ridículo, bom, generoso, medroso, apaixonado. Há certa beleza no fato de um copista, alguém cuja profissão consiste em reproduzir palavras alheias, terminar o livro justamente escrevendo a si mesmo.
E talvez por isso Púchkin permaneça com ele no final. Na penúltima carta, já sabendo da partida de Varvara, Makar pede que ela não leve de volta os Contos de Biélkin. Diz que vem aí o inverno, as noites serão longas, haverá tristeza, e então poderá ler. A mulher vai embora, mas fica o livro.
Não deixa de ser bonito que uma obra tão ocupada com a fome, o aluguel, a roupa gasta e o dinheiro termine também nos lembrando de outra necessidade, menos urgente para o corpo e nem por isso pequena. Contar-se, ser lido, reconhecer-se em alguém e, por vezes, sobreviver a uma ausência com um livro nas mãos.