Jair Henrique Lemes
Apenas alguns fragmentos impertinentes...
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Raskólnikov escreve seu artigo como um álibi. Divide a humanidade entre os homens que devem obedecer e aqueles que, por sua grandeza, poderiam violar a lei. Napoleão atravessou montanhas de cadáveres e entrou para a história. Por que outros homens, dotados de uma vontade igualmente extraordinária, deveriam se submeter aos escrúpulos da multidão?

 

É difícil não reconhecer nessa ideia uma aproximação perturbadora com o pensamento de Nietzsche. Ambos parecem colocar em questão a autoridade dos valores estabelecidos diante da possibilidade de uma existência que não se submeta inteiramente à moral dominante. Mas até que ponto essa semelhança resiste a uma análise mais cuidadosa?

 

Para Raskólnikov, a humanidade estaria dividida entre aqueles cuja função é conservar a ordem e aqueles que, por sua excepcionalidade, poderiam ultrapassá-la. O homem extraordinário não estaria necessariamente isento da lei, mas poderia conceder a si mesmo o direito de transgredi-la quando sua finalidade assim o exigisse. Napoleão surge como referência dessa condição: alguém cuja grandeza histórica parece ter sobrevivido aos crimes cometidos em seu nome.

 

Nietzsche, por sua vez, também questiona a universalidade da moral, mas o faz a partir de uma perspectiva distinta. Sua crítica não se limita à possibilidade de determinados indivíduos violarem as regras comuns. Interessa-lhe investigar a origem dos próprios valores, as condições em que foram estabelecidos e os impulsos humanos que contribuíram para sua formação. A moral, nessa perspectiva, deixa de aparecer como algo necessariamente dado e passa a ser examinada como uma construção histórica.

 

Há, portanto, uma diferença que merece atenção. Enquanto Raskólnikov parece preocupado em determinar quem teria o direito de ultrapassar os limites morais, Nietzsche interroga a própria formação desses limites. Mas não haveria, em ambos, uma desconfiança semelhante em relação à pretensão de que uma mesma moral possa servir indistintamente a todos os homens?

 

O assassinato da velha agiota introduz outra dimensão ao problema. Raskólnikov não pretende apenas demonstrar uma teoria. Seu crime é também uma tentativa de descobrir a que espécie de homem pertence. Não lhe basta acreditar na própria superioridade. Precisa experimentá-la. Se Napoleão pôde atravessar montanhas de cadáveres sem que a história lhe negasse a grandeza, por que ele deveria considerar um único assassinato um obstáculo à sua própria excepcionalidade?

 

Entretanto, essa necessidade de comprovação parece estabelecer uma distância entre seu pensamento e a concepção nietzschiana do além-do-homem. Raskólnikov procura sua grandeza em uma categoria previamente definida. Precisa saber se pertence aos homens extraordinários, se possui a mesma liberdade que atribui às figuras históricas que admira. Sua transgressão, nesse sentido, não representa necessariamente a criação de novos valores, mas a tentativa de verificar se está autorizado a ultrapassar os existentes.

 

O além-do-homem nietzschiano, por outro lado, não se define simplesmente pela capacidade de desobedecer ou pela disposição de cometer atos que a moral condena. Está relacionado à possibilidade de superação de valores herdados e à criação de outros. Mas onde termina a transgressão de uma moral e começa sua efetiva superação? Seria possível distinguir uma vontade criadora de uma vontade que apenas deseja não se submeter?

 

O problema se torna ainda mais complexo depois do crime. A febre, o medo, os delírios, a culpa. Dostoiévski apresenta um homem cuja inteligência conseguiu elaborar uma justificativa para o assassinato, mas cuja existência parece incapaz de suportar as consequências dessa elaboração.

 

A experiência de Raskólnikov permite, então, outra aproximação com Nietzsche. Se a consciência moral não é necessariamente uma disposição imutável da natureza humana, mas também o resultado de uma longa história de imposições, punições e valores assimilados, o sofrimento posterior à transgressão poderia ser compreendido de diferentes maneiras.

 

Seria a culpa a manifestação de uma ordem moral que Raskólnikov tentou negar? Ou revelaria a profundidade com que determinados valores foram incorporados à sua própria constituição? E, ainda que sua consciência tivesse sido historicamente formada, isso seria suficiente para retirar qualquer legitimidade de seu sofrimento?

 

A questão parece ultrapassar a simples oposição entre obedecer e transgredir. Raskólnikov conhece intelectualmente a possibilidade de uma moral que não se aplique igualmente a todos, mas essa convicção não o impede de experimentar a culpa. Nietzsche, ao investigar a formação histórica da consciência moral, oferece outra perspectiva para pensar esse conflito, sem que isso determine necessariamente o significado da experiência vivida pelo personagem.

 

Há também uma contradição interessante na própria construção do homem extraordinário. Raskólnikov pretende situar determinados indivíduos acima da moral comum, mas utiliza como referência figuras cuja grandeza foi reconhecida pela história. Napoleão é extraordinário porque transgrediu os limites de sua época ou porque suas transgressões acabaram sendo legitimadas pelos acontecimentos posteriores? O reconhecimento histórico da grandeza poderia, por si só, estabelecer alguma distinção moral entre os homens?

 

E se a excepcionalidade depende desse reconhecimento, até que ponto o homem extraordinário estaria realmente livre dos valores daqueles que pretende superar?

 

Talvez seja precisamente nesse ponto que a comparação se torne mais interessante. Raskólnikov imagina uma humanidade dividida entre os que obedecem e os que possuem o direito de transgredir. Nietzsche coloca em discussão as próprias condições que fazem da obediência uma virtude e da transgressão uma condenação. Ambos questionam a relação entre o indivíduo e a moral, embora não necessariamente atribuam o mesmo significado à ideia de superação.

 

O sofrimento de Raskólnikov acrescenta uma dificuldade que nenhuma aproximação conceitual deveria ignorar. É possível rejeitar intelectualmente determinados valores e continuar profundamente submetido a eles. Podemos deixar de acreditar em Deus e continuar organizando nossa existência a partir de uma moral cuja autoridade esteve historicamente associada a ele. Podemos questionar a origem de nossas convicções sem conseguir nos libertar das experiências que as tornaram parte de nós.

 

Mas seria essa incapacidade uma demonstração dos limites da vontade individual ou uma indicação de que a moral não pode ser reduzida àquilo que pensamos sobre ela?

 

Raskólnikov talvez não corresponda ao além-do-homem nietzschiano. Sua teoria e a filosofia do alemão parecem se aproximar na crítica à submissão indistinta aos valores estabelecidos, mas se afastam quando se considera o significado da excepcionalidade e da própria superação moral. Enquanto um procura justificar o direito de determinados homens à transgressão, o outro interroga a origem dos valores e a possibilidade de sua criação.

 

Mas até que ponto essa distinção resolve o problema? Se a moral deixa de possuir uma autoridade universal e o homem passa a reconhecer em si a possibilidade de criar seus próprios valores, o que estabeleceria os limites dessa liberdade? Como distinguir aquele que efetivamente supera os valores estabelecidos daquele que apenas encontra nessa possibilidade uma justificativa para seus próprios atos?

 

Talvez a questão mais inquietante não esteja em saber se Raskólnikov poderia ser considerado um além-do-homem, mas no que aconteceria se outros homens, igualmente convencidos de sua excepcionalidade, reivindicassem para si a autoridade de determinar o que lhes é permitido.

 

Afinal, se um homem pode criar seus próprios valores, não estaríamos também sujeitos a outros Raskólnikovs?

Jair Henrique Lemes
Enviado por Jair Henrique Lemes em 26/10/2026
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