Quincas Borba tinha uma maneira curiosa de compreender as desgraças humanas. Duas tribos famintas, um campo de batatas, uma guerra. Uma vence, a outra desaparece. E nosso filósofo encontra na carnificina a confirmação de sua teoria.
Ao vencedor, as batatas.
Lembrei-me disso assistindo a Better Call Saul. Há em Jimmy McGill uma tristeza difícil de ignorar. Um desejo quase infantil de ser reconhecido, de provar que também merece ocupar algum lugar no mundo. Suas frustrações não são imaginárias, tampouco é inteiramente injustificada a amargura que sente. Chuck, com seu rigor religioso pela lei, tampouco está inteiramente errado em desconfiar do irmão. É uma dessas relações em que os ressentimentos se alimentam mutuamente, até que já não se saiba onde termina a razão de um e começa a injustiça do outro.
Jimmy, entretanto, encontra nas próprias frustrações uma espécie de licença. As pequenas trapaças ganham explicações razoáveis, os desvios encontram circunstâncias atenuantes, e a consciência aprende a acomodar quase tudo. Saul Goodman vai surgindo, de sucessivas concessões que, tomadas isoladamente, parecem insignificantes.
Não que Jimmy seja propriamente um humanitista. Quincas Borba pretendia explicar o mundo; Jimmy procura justificar a si mesmo. Mas há entre eles uma familiaridade incômoda: a crença de que o êxito pode conferir alguma legitimidade aos meios empregados. Afinal, se as batatas estão em nossas mãos, não seria isso uma evidência de que soubemos agir melhor?
Essa confusão entre vencer e ter razão não é, evidentemente, privilégio dos personagens de ficção. Encontra-se também em nossa política, em que alguns homens, diante de uma censura moral, oferecem como resposta o número de votos que receberam. Vi muito isso em algumas atitudes após o primeiro turno eleitoral. E há nisso uma curiosa pretensão: a de que a escolha popular, além de conferir legitimidade ao exercício do poder, conceda alguma espécie de absolvição pessoal.
Não deixa de ser uma variação engenhosa daquela velha filosofia. Mudam as disputas, os instrumentos, a natureza das recompensas. O raciocínio permanece familiar: venceu, logo merece; foi escolhido, logo tem razão.
Humanitas, ao que parece, acompanhou o progresso.